“Aqui estou! Envia-me!”

Só vendo com os próprios olhos… eu acredito!
20 de novembro de 2018

Certa vez, quando Jesus foi questionado pelos judeus por ter curado um homem no dia de sábado – dia do “descanso” de Deus, segundo a lei de Moisés –, Jesus disse: “Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho” (Jo 5,17). Deus trabalha. Ele não está sentado no Seu trono simplesmente assistindo ao que acontece com a humanidade. Ele trabalha porque Sua obra de redimir e salvar tudo o que criou continua em andamento. Esta obra, como nos lembra o salmista, deve ser completada em cada um de nós (cf. Sl 138,8).

Ao mesmo tempo em que Deus trabalha continuamente pela salvação da humanidade, Ele chama pessoas para colaborar com Ele nesse trabalho. Foi o caso do profeta Isaías que, ao participar de uma celebração no templo, sentiu em seu coração um forte apelo de Deus: “Quem enviarei? Quem irá por nós?”, e Isaías prontamente respondeu: “Aqui estou! Envia-me” (Is 6,8).

Hoje, Deus continua a dirigir à nossa consciência o mesmo apelo: “Quem enviarei? Quem irá por nós?”. Quem irá por mim junto às crianças e adolescentes nas escolas, junto aos professores e funcionários, junto às famílias desestruturadas? Quem irá por mim junto aos refugiados, aos estrangeiros, aos moradores de rua? Quem irá por mim junto aos desempregados, aos doentes, aos aflitos? Quem irá por mim junto aos políticos, juízes, empresários, junto aos corruptos, aos criminosos, junto àqueles que cometem injustiças contra os outros?

E, então, qual é a sua resposta? Você tem a coragem de dizer: “Estou aqui! Envia-me”? Você compreende que Deus precisa também de você, para que a obra dEle possa ser completada no mundo? Assim como Isaías, como Paulo e os demais Apóstolos, cada um de nós é chamado a trabalhar pelo Evangelho, a anunciar a misericórdia de Deus àqueles que convivem conosco, a tantos que dela necessitam.

“Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho” (Jo 5,17). Para anunciar a Palavra de Deus aos seus ouvintes, Jesus toma emprestado um instrumento de trabalho – um barco de pesca. Depois de ter falado à multidão, para comprovar a eficácia da Palavra de Deus na vida daquele que a ouve e a obedece, Jesus disse a Simão, dono do barco: “Avançai para as águas mais profundas e lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4). Simão, como experiente pescador, sabendo que não se pesca durante o dia, respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes” (Lc 5,5).

Assim como Simão, nós sabemos que “o mar não está pra peixe”. Existem situações ao nosso redor diante das quais já nos debruçamos e nos esforçamos por modificar, mas que continuam iguais ou até piores. No entanto, “em atenção à tua palavra”, por obediência ao Deus que nos fala e nos lança o Seu apelo, nós devemos ir para as águas mais profundas e lançar novamente as redes para a pesca. Trabalhar com Deus e por Ele é assim: não fazemos as coisas porque as condições são favoráveis e o resultado está garantido. Mesmo quando tudo indica que o trabalho será perdido, lançamos as nossas redes porque Ele nos mandou lançá-las.

Olhando para a nossa realidade, onde se encontram as águas mais profundas? Elas são exatamente aqueles lugares onde o Evangelho ainda não chegou. Elas são o coração daquelas pessoas às quais desistimos de anunciar Jesus Cristo, assim como aquelas às quais nunca O anunciamos. Porém, essas águas também falam de algo dentro de nós, falam de profundidade. Nossos relacionamentos estão marcados pela superficialidade: com Deus, conosco mesmos e com os outros. No entanto, tudo aquilo que fazemos, até as coisas mais rotineiras, precisamos fazer com profundidade.

Jesus nos convida a mergulhar mais fundo para descobrir a força que está escondida em nós, assim como a capacidade que o outro tem, capacidade até então desconhecida por ele e por nós. Jesus passa hoje pelo nosso trabalho, entra em nosso cotidiano e nos faz um convite: “Preciso que você se torne comigo um ‘pescador de homens’ (cf. Lc 5,10). Preciso de você para salvar pessoas. Preciso que use o seu trabalho como meio/instrumento de evangelização. Preciso que você direcione o seu talento, a sua capacidade, os seus dons, para algo mais importante…”

 

Pe. Paulo Cezar Mazzi

Formador da Teologia

 

Publicado na revista Jesus Caminho Seguro em novembro de 2016.

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